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Enoblogs - blogs unidos pelo vinho

A força dos vinhos portugueses: suas castas e seus blends

Por Edecio Armbruster com Silvia Cintra Franco

 

Apesar das agruras que o mundo do vinho vem sofrendo, entre recessão, crises econômicas, tempestades na Borgonha e terremotos na Califórnia, Portugal tem um trunfo na manga: uma nova geração de enólogos disposta a trabalhar e a produzir vinhos com as castas nativas portuguesas, únicas, especiais e fora da mesmice das chamadas uvas internacionais que, na verdade, são de origem francesa como a cabernet sauvignon e a chardonnay. 

 

Portugal conta com cerca de 250 variedades nativas que lhe permitem produzir uma grande diversidade de vinhos com personalidade muito distinta como Touriga Nacional, Touriga Franca, Trincadeira, Aragonês, Baga, Castelão, Alvarinho, Arinto, Fernão Pires, Encruzado e muitas outras.

 

E como bem diz Hugh Johnson para os enófilos britânicos em seu Pocket Wine Book 2014, você não precisa saber pronunciar o nome das castas portuguesas para apreciar seu caráter vivaz e sedutor. 

 

Para nosso enviado especial à Grande Degustação do  Vinho de Portugal "safras antigas" organizada pela Vini Portugal (26/abril/14 com Jorge Lucki), Edecio Armbruster, médico, presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (2002-2006) e atual vice presidente da Academia Brasileira de Gastronomia,  colunista da revista Bon Vivant, vale comentar três vinhos que particularmente lhe chamaram a atenção:

 

1- Quinta de San Joanne Escolha 2000. Vinho verde da Casa de Cello. Vinho Verde branco de 14 anos elaborado a partir das uvas Avesso e Chardonnay e que resistiu ao tempo com uma evolução impressionante. Toque oxidados, cevada e frutas de bosque maduras. leve couro na boca, alta acidez que aliado a complexidade, que já deveria existir na sua elaboração em 2000, foram seguramente os responsveies pela perfeito evolução na garrafa. Vinho para apaixonados por vinhos brancos.

 

2- Cortes de Cima 1998 de Hans Christian Jorgensen, porcentagem alcoólica 14,5% e acidez com pH de 3,5. Vinho elaborado de 85% de Aragonês e 15% de Cabernet Sauvignon. Vinho que brilha principalmente pela elegância. Apesar de seus 16 anos os taninos doces estão presentes e totalmente resolvidos. Vinho "redondo", longo na boca, complexo no final de boca e de persistência retro-olfativa. Grande vinho para uma Grande Degustação (importação Adega Alentejana).

 

3- Burmester (Sogevinus) Vinho do Porto Collheita 1955 engarrafado em 2011. Vinho com quase 60 anos de criação e 56 anos de amadurecimento em toneis. Amêndoas intensas e frutas secas outras mais discretas, mas muito presentes, aliados a toques herbáceos discretos e ao leve cítrico. Acidez alta, redondo, final de boca longuíssimo, preponderando as frutas secas. Vinho vivo de vida ainda muito longa que trará prazer quando quer que seja degustado (importação Adega Alentejana).

 

 Castas Portuguesas, um tesouro a descobrir

 

Brancas

 

Alvarinho
A casta Alvarinho produz vinhos brancos ricos e minerais e com muita personalidade, com notas aromáticas de pêssego e citrinos e, por vezes, de frutos tropicais e flores. Esta casta branca de elevada qualidade tem sido muito premiada no noroeste português, sendo bastante cultivada no norte da região do Vinho Verde, entre o rio Lima e o rio Minho, que forma a fronteira com a Espanha. A sua origem é a sub-região de Monção e Melgaço na famosa região do Vinho Verde. Os vinhos provenientes da casta Alvarinho são mais intensos e com mais potencial alcoólico do que a maioria do Vinho Verde, sendo muitas vezes engarrafado em estreme. Estes vinhos são deliciosos quando são engarrafados e podem envelhecer muito bem. Os viticultores em outras partes de Portugal reconhecem a qualidade da Alvarinho e a casta está a disseminar-se lentamente até ao sul.

 

Arinto/Pedernã

A casta Arinto | Pedernã proporciona vinhos minerais elegantes com predominância de aromas de maçã e limão, que são deliciosos quando novos e frescos, mas também podem adquirir alguma complexidade no envelhecimento. A Arinto é a principal casta dos famosos vinhos brancos delicados e elegantes de Bucelas, logo a norte de Lisboa. É uma casta de maturação tardia com a grande vantagem de manter a sua frescura mesmo em temperaturas mais elevadas. Não admira, por isso, que se tenha disseminado por muitas áreas do país, principalmente em regiões quentes como o Alentejo, onde ajuda a equilibrar a acidez reduzida das castas da região. Muitas vezes proporciona uma elegância fresca ao ser combinada com outras castas brancas. Também tem muito sucesso na região dos Vinhos Verdes, onde é conhecida pelo nome Pedernã. A sua acidez natural elevada é também uma vantagem para a produção de espumantes.

 

Encruzado
A casta Encruzado produz vinhos brancos intensos, elegantes e bem equilibrados, com delicados aromas florais e citrinos e, por vezes, um caráter mineral muito atraente. Deliciosa no seu estado puro, sem estágio na madeira de carvalho, a Encruzado também responde bem à fermentação em barris de carvalho ou envelhecimento em carvalho, resultando em vinhos bem estruturados, sérios e delicados que podem envelhecer e ganhar maturidade ao longo de muitos anos. É mais facilmente encontrada na região do Dão e no centro-norte do país, tanto em estreme como em lote – que representam alguns dos vinhos brancos mais interessantes de Portugal. Na vinha, mesmo em temperaturas mais elevadas, as uvas Encruzado mantêm a sua acidez fresca e amadurecem de forma perfeita sem se tornarem demasiado doces.

 

Fernão Pires/ Maria Gomes 

A casta Fernão Pires | Maria Gomes proporciona vinhos brancos leves, frutados e perfumados cujo aroma faz lembrar o vinho moscatel. Os sabores de citrinos e os aromas florais são mais frescos quando é vindimada cedo para um consumo rápido.

Também é utilizada em espumantes e pode, ocasionalmente, ser vindimada em colheita tardia para produzir vinhos doces.

É a casta branca mais cultivada em Portugal e é amplamente plantada por todo o país, em particular ao longo da costa ocidental, incluindo a Península de Setúbal, Tejo, Lisboa e Bairrada. Também é conhecida como Maria Gomes.

 

 

Castas Tintas

 

Baga
Esta casta de maturação tardia proporciona, na maioria das vezes, tintos com taninos bem definidos, que podem ser adstringentes enquanto jovens, mas que se tornam mais complexos com o envelhecimento. Em dias mais quentes, ou através da maturação hábil e vinificação cuidada, a Baga pode produzir vinhos tintos densos, com aromas de cereja e ameixa quando engarrafados. Através do envelhecimento o vinho pode obter aromas mais suaves, embora também mais complexos, de ervas, malte, cedro e folha de tabaco. É originária da Bairrada, mas também é cultivada em outras regiões como nas Beiras, incluindo o Dão.
É também utilizada como base para vinhos espumantes.

 

Castelão

É a casta tinta mais cultivada no sul de Portugal, dando origem a vinhos firmes, delicados com aroma de framboesa, que se desenvolvem num perfil com toques de cedro e caixa de tabaco. Dá o melhor de si na região de Palmela, a sul de Lisboa, na Península de Setúbal.

 

Tinta Roriz/Aragonês

A Tinta Roriz/Aragonês proporciona vinhos tintos delicados e elegantes, com aromas a frutos vermelhos, ameixa e amora e taninos firmes que conferem um potencial de maturação muito bom. Com o nome de Tinta Roriz no norte de Portugal, esta é uma das principais castas para o vinho do Porto e vinhos do Douro e é também muito importante na região do Dão. No Alentejo assume o nome de Aragonês e é, em geral, utilizada em lotes com outras castas como, por exemplo, a Trincadeira.

 

Touriga Franca

A casta Touriga Franca dá origem a vinhos aromáticos de cor densa, firmes mas ricos, com notas florais e de amora. É uma das cinco castas oficialmente recomendadas para o vinho do Porto e é também utilizada em lotes de tinto no Douro. Efetivamente, esta é a casta mais cultivada no Vale do Douro e é habitualmente uma casta de lote.

 

Touriga Nacional 

A Touriga Nacional dá origem (além do vinho do Porto) a vinhos firmes e de cor rica com aromas e sabores que fazem lembrar violeta, alcaçuz, groselha negra e framboesa, com nuances subtis de bergamota. Sendo originalmente do norte, é atualmente cultivada por todo o país, sendo uma casta com potencial para produzir vinhos com excelentes capacidades de envelhecimento.

 

Trincadeira/Tinta Amarela

A Trincadeira | Tinta Amarela pode criar tintos com fortes e magníficos aromas de framboesa, picantes, de especiarias e ervas e uma acidez muito fresca. Esta casta tinta cresce por todo o país principalmente em regiões secas e quentes, mas, provavelmente, estará no seu melhor no Alentejo. Na região do Douro é conhecida como Tinta Amarela.

 

A força está no blend por José João dos Santos

 

É verdade que a globalização permitiu reduzir barreiras e diminuir distâncias, facilitando ao mesmo tempo a partilha de conhecimento e de experiências, entre outras virtudes. Por isso, não é menos verdade que cada um de nós está mais recetivo à possibilidade de aprender e experimentar algo que ultrapassa os estereótipos. E o vinho não é exceção.

 

O consumidor de vinho mundial é estereotipado por clichê como sendo alguém que segue um determinado sabor, que tem sido criado com especial insistência durante os últimos 20 anos. Com o aparecimento de novos países produtores, a disseminação das castas de origem francesa foi arrebatadora, resultando numa produção de vinhos relativamente semelhantes, elaborados quase sempre a partir de uma única casta. Com o tema dos terroirs empurrado para segundo plano, muitas entidades focaram a sua atenção na produção de vinhos varietais, utilizando o tipo da casta como o motivo mais importante para convencer o consumidor a adquirir o vinho.

 

Os enófilos e consumidores mais atentos começaram a memorizar os nomes das castas francesas, consideradas “internacionais” devido à sua prevalência nos países produtores de vinho. Foi, em termos de marketing, uma estratégia muito bem concebida e promovida de uma forma excecional. Prova disso é o enorme sucesso da maioria dos chamados vinhos do “Novo Mundo” em diversos mercados, entre os quais estão incluidos, imagine-se (!), os mercados tradicionais europeus.

 

O enaltecimento de um certo estilo e sabor também levou a que a maioria dos vinhos disponíveis no mercado fosse dividida em duas grandes classes: vinhos brancos fáceis de beber e vinhos tintos estruturados, de cor rica e frutados com um marcado envelhecimento em carvalho. As principais publicações internacionais não se cansaram de elogiar estes vinhos, classificando-os generosamente. Tal serviu de incentivo à indústria vinícola global para continuar a insistir nestes perfis de sabor e a direcionar os consumidores para um estilo pré-definido. Mas estamos cada um de nós, e os consumidores típicos de vinho, obrigados a aderir a esta forma de beber e apreciar vinho? Para os que acreditam que beber vinho não é o mesmo que beber um refrigerante, nem é tão uniforme como simplesmente degustar o envelhecimento em carvalho, existe um outro caminho a seguir. Repleto de opções distintas, igualmente tentadoras e muito melhores, a um preço justo.

 

Estas alternativas são os vinhos de boutique, tanto com produção reduzida como média e até, em alguns casos, com uma produção substancial.


Estão disponíveis às dezenas em mercados por todo o mundo e a maioria dos críticos de vinho no panorama internacional têm-se rendido à sua excelente qualidade e distinção. Estes são vinhos que representam um território pequeno mas diverso, que combinam a sabedoria antiga com os conhecimentos científicos e técnicos mais recentes. Mas acima de tudo, estes vinhos têm origem num património raro e excecional com mais de 250 castas nativas, um legado genético enorme de castas exclusivas pertencentes à espécie Vitis Vinifera unidas num único país. E, é verdade que em Portugal poder-se-á encontrar as castas Chardonnay, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon e Merlot, entre outras castas “internacionais”.

 

 No entanto, estas representam uma percentagem muito reduzida das vinhas e são utilizadas quase sempre como “o sal e a pimenta”. O valor dos vinhos portugueses encontra-se essencialmente nas suas castas, como a Alvarinho, Encruzado, Baga e Touriga Nacional, entre muitas outras. Estas são castas que dão origem a vinhos únicos, longe do grande público e à margem dos mercados convencionais, sendo por esta razão particularmente interessantes.

 

O património vitivinícola de Portugal tem um outro traço característico: raramente apresenta uma única casta por si só. Com algumas exceções (como a Alvarinho e Encruzado, nos brancos, e a Touriga Nacional e Baga, nos tintos), a força dos vinhos portugueses está na arte do lote (ou “Blend”). É a arte de criar um vinho que tem origem em duas, três, quatro ou, por vezes, dez castas diferentes! No passado, a mistura de castas nas vinhas quase sempre ditava o lote final. Hoje em dia, com os avanços na viticultura, com a enxertia compartimentada, é possível avaliar o valor de cada casta. Assim, no conforto da adega, a arte do lote fica por conta da mestria do enólogo.

 

Existem muitos exemplos de combinações de sucesso: o lote Arinto/Fernão Pires em vinhos brancos já é um clássico em regiões como a Bairrada, as Beiras, Lisboa ou Tejo. Aproveita-se a casta Arinto para trazer frescura e longevidade e a Fernão Pires, a casta branca mais cultivada em Portugal, proporciona uma riqueza aromática ao lote. Também podemos referir a combinação das castas Trincadeira/Aragonês, comum no Alentejo e um dos símbolos da vitivinicultura da região, o tinto Pêra Manca. A casta Trincadeira proporciona a intensidade da cor, nuances florais e uma grande capacidade de envelhecimento e, por sua vez, a Aragonês contribui com aromas de frutos vermelhos, com notas de especiarias e com um toque final de elegância. Também podemos referir outras combinações de castas com resultados comprovados e frequentes no Douro. Os vinhos de lote com a casta Touriga Nacional, que confere notas florais de violeta, um bom equilíbrio e bom potencial de envelhecimento, e a casta Touriga Franca, com cor intensa, aromas de fruta e taninos bem definidos. O blend resultante produz vinhos encorpados mas também elegantes, o vinho Barca Velha e outros vinhos do Douro Super Premium têm por base esta combinação.

 

Mas as castas portuguesas também podem ser lotadas com outras castas internacionais. As portuguesas constituem a estrutura e o perfil do lote, enquanto as internacionais funcionam como o sal e a pimenta destes vinhos, criando nuances de aromas que resultam num perfil de sabor mais amplo. Lotes como Arinto/ Chardonnay, Aragonês/Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional/Syrah são muitas vezes utilizados em vinhos concebidos para serem consumidos quando engarrafados e adequados a ocasiões mais informais.

 

O vasto leque de opções disponíveis permite a escolha de um vinho português para qualquer ocasião. Para consumo diário ou para ocasiões festivas e para cada momento da refeição, como aperitivos ou digestivos. A aquisição de um vinho português é muito menos dispendiosa, quando comparado à grande satisfação que sem dúvida proporcionará a quem o oferecer.

 





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