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Enoblogs - blogs unidos pelo vinho

Os vinhos de muita bossa, nossa!, de Filipa Pato

Por Silvia Cintra Franco

 

 

Filipa Pato está entre os melhores enólogos e produtores portugueses segundo Jancis Robinson e conta com nada menos do que três estrelas de Hugh Johnson!

 

A primeira vez que entrevistei Filipa Pato ela acabava de chegar ao Brasil em agosto de 2007 acompanhada do então namorado, William Walters sommelier e restaurateur da Antuérpia (e que mantém o restaurante e suas atividades ali), com quem tem hoje dois filhos e a empresa Vinho Doidos.

 

Filipa vinha a convite de sua importadora a Casa Flora/ Porto a Porto e trazia na bagagem seu Lokal Sílex 2004,  e "nossa!", exclamei ao primeiro gole, "como é bom!

 

Na época, dizia-se de Filipa que filha de Pato (Luis Pato, o mestre da Baga) Patinha é… Pois hoje não ocorre a mais ninguém este comentário.

 

O nome de Filipa Pato se alça e se mantém por mérito próprio no grupo de ponta de grandes e inventivos enólogos de Portugal ou de onde quer que seja. Jancis Robinson, em seu enciclopédico Wine Grapes, recomenda Filipa Pato como um dos melhores produtores de Bical e Hugh Johnson lhe confere três estrelas em seu Pocket Wine Book 2014!

 

Ela pertence à quinta geração da família a fazer vinhos, e a fazer sozinha! Mais uma mulher da qual se pode dizer que atrás de uma mulher bem sucedida só existe ela mesma. 

 

Luis Pato, o homem que domou a baga como convencionou-se dizer e com razão porque a baga não é para principiantes, deve ter seguido o modelo dos patos que simplesmente empurram os patinhos para água e eles que saiam a nadar.

 

Filipa nos contou no início de fevereiro deste ano (6/2/14) que o pai avisou: se quer começar no vinho, que começasse sozinha e aí saberia o que era difícil. Em compensação não estaria à sombra do pai como efetivamente não está.

 

E Filipa Pato, esta enóloga jovem, brilhante, dinâmica, cheia de vida e energia que dispensa cosméticos tal qual seus vinhos, nos confessou: foi mesmo difícil fazer os vinhos que sonhava.

 

Com formação em Bordeaux, estágios na Austrália, Argentina e França, Filipa começou aos 25 anos com a ajuda da avó Maria Tereza Pato que lhe cedeu vinhedos e uma vinícola de 1888 por volta de 2001. 

 

Em 2010 adquiriu de outra avó uma nova adega onde usa picos de 500 litros e com sala de provas. Somente trabalha com uvas nativas - baga, bical, arinto e, no caso dos tintos, apenas a difícil baga (para saber mais, vide final do artigo). 

 

Seus vinhos são como ela: cheios de energia, sem maquiagem e sem meias palavras, fortemente identificados com a Bairrada e o Dão de onde eles e ela vêm. 

 

Não tem mesa de seleção das uvas, porque o cuidado na vinha é o máximo. Faz compostagem com estrume de vaca que deixa madurar um ano. Não usa pesticidas nem nada. Não fazem correções de ácidos e de açúcar. Usa lagares de carvalho para o Nossa como os antigos lagares romanos da região. No Douro os lagares são de granito e na Bairrada de carvalho. Cada vez tem vinhas mais velhas entre 20 e 110 anos. Os vinhos Nossa são grandes vinhos. Impecáveis! Para dizer mesmo minha Nossa!

 

De tanto ouvir a exclamação tão brasileira nossa!, a palavra que marcou William que não falava português, os dois vinhos da Vinhos Doidos levam o nome de Bossa (tributo à bossa nova) e de Nossa. Não deixe de degustar o Nossa Calcário 2011 que é de arrancar muito Nossa! de nossas bocas…

 

Seu Nossa Calcário Bairrada 2011 é um vinhaço com a maior pontuação - 18,5 ou 96 pontos - na seleção de vinhos tintos que a Decanter Magazine de jan/14 selecionou e que inclui vinhos dos melhores produtores de baga como Luis Pato,  Dirk Nieeport e Luis Patrão.

 

Seu  instigante e mineral Nossa Calcário Branco 2011 foi considerado por Jancis Robinson em 2013 como o melhor branco português ao lado de Redoma Reserva Nossa 2007 de Niepoort. E estejam certos, há nele algo que recorda os brancos de Didier Daguenau.

 

 

Notas de degustação

 

Vinhos Doidos , empresa de Filipa Pato e seu marido William Walters, tem por conceito a quebra de paradigmas, vinhos da Bairrada produzidos de uma forma totalmente moderna e muito diferenciada. São eles o Bossa e o Nossa. O Bossa é  vinho de festa, de volume, fácil e simples de beber feito com a casta Maria Gomes. O Nossa é mais elaborado, complexo.

 

 

Nossa Calcário Branco 2011 

Vinhos Doidos

Amarelo claro com reflexos esverdeados.

Frutas amarelas em nariz. Fantástico em boca com muita e agradável personalidade. 

Pêssego branco, cítrico, grande estrutura, foco. Grande salinidade. 

Redondo em boca e também com deliciosa e saborosa salinidade. Notas de frutas secas. Notas defumadas. Fermenta em madeira lentamente e fica 6 meses no pipo e depois vai para inox. 

Muito fresco.

3 mil garrafas apenas. Para guarda até 20 anos . Recorda Didier Daguenau pela salinidade e personalidade. Muito mineral. R$130,41

 

 

Nossa Calcário Tinto R$ 130,41

Corte de Bical e Encruzado.

Tinto superior com a forte presença da baga, muito intensa, muito presente. Tabaco no nariz. Apenas Baga. Complexo, superior, pra dizer Nossa!

Está é novidade absoluta!

 

 

 Filipa Pato Brut Rose 3B

Espumante 70% baga e 30% bical. Passa 9 meses sur lies.

Salmonado na taça.

Borbulhas mínimas e irrequietas. Bom ataque de agulhas, mousse cremosa.

Frutas, cereja. Boa acidez. 

Um espumante fácil de beber e de pagar. R$66,81

 

 

Filipa Pato Bical Arinto BC 2011 

Amarelo dourado na taça.

Bela acidez, saboroso, notas picantes em boca. Com a Bical falando mais alto. Uma beleza de branco neste verão. Sedoso e cítrico em boca. 

Fermenta em pipas. Mineral, frutado e com notas de salinidade. 

Muito fresco. Um vinho de entrada. R$65,09

 

Filipa Pato Baga & Touriga 2009 

Muita fruta no nariz. Frutado em boca, taninos presentes , perfeitos para carnes. Fácil de beber, médio corpo. Final longo e com muita personalidade. Muito agradável na entrada e com uma pegada na saída. R$57,86

 

Filipa Pato FLP Doce Bairrada DOC 2009 

Frutas cítricas, tropicais, notas minerais, levemente adocicado. Bela acidez,  uma beleza! 

R$129,29 

 

Para saber mais

A baga é difícil porque:

1) demora para amadurecer e não está no ponto quando chegam as chuvas do outono, daí a necessidade de estar plantada em solos argilosos-calcários que fazem boa drenagem, retêm o calor e o transferem às plantas; 

2) é muito vigorosa e tânica, exige uma gestão ou lida nos vinhedos de modo a acelerar seu amadurecimento para melhorar a qualidade de seus taninos. 

Filipa Pato
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