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Enoblogs - blogs unidos pelo vinho

Como se fazem os grandes terroirs?

 

Os grandes vinhedos não se fazem por acaso e nem devem sua excelência somente ao terroir. Se os vinhos de Bordeaux, Douro e Toscana são reconhecidos no mundo inteiro, isto se deve a parâmetros geopolíticos e históricos que lhes asseguraram a supremacia sobre outras regiões.

 

Silvia Cintra Franco

 

No final deste janeiro 2013, as candidaturas de Borgonha e Champagne para terem seus vinhedos (Borgonha) e suas caves (Champagne) considerados Patrimônio da Humanidade ficaram de fora do pleito que acontecerá em 2014. Já os vinhedos do Alto Douro e de Bordeaux são considerados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO há anos!

 

A verdade é que os grandes vinhedos não se fazem por acaso e nem devem sua excelência somente ao terroir. É o que revela Jérome Baudouin  em interessantíssimo estudo publicado pela revista francesa La Revue du Vin de France.  

 

Algo neste excelente estudo me faz lembrar “A origem da riqueza das nações” de Adam Smith. Baudouin analisa as razões pelas quais bons terroirs vêm produzindo grandes vinhos há séculos e outros apenas recentemente. E esta análise, que não é de hoje, mas de novembro de 2009,  pode ajudar a entender porque Bordeaux e Douro já alcançaram este status bem à frente de Borgonha e Champagne.

 

De onde vêm os grandes vinhos 

Uma das razões se deve porque os grandes vinhos são produzidos em regiões com melhor infra-estrutura para produção e comercialização. É uma boa razão, embora não suficiente.

 

Como disse o geógrafo Roger Dion sobre os fatores da qualidade dos vinhos: “a função do terreno na elaboração de um grand cru não vai muito além daquela da matéria na elaboração de uma obra de arte” (“Le paysage et la vigne, essais de géographie historique” de Roger Dion, 1990).

 

Radical, não? Mas ele acredita que se os vinhos de Bordeaux, Borgonha, Douro e Toscana são reconhecidos no mundo inteiro, isto se deve a parâmetros geopolíticos e históricos que lhes asseguraram a supremacia sobre outras regiões, algumas hoje desaparecidas. Assim, a diferença entre crus se dá sim graças à qualidade do terroir, mas a diferença entre as regiões vinícolas se dá por outros motivos que vão além do terroir.

 

A qualidade de um vinho é a expressão de um meio social

 

Havia dois tipos de vinho na França antiga, o de consumo diário e o de grandes ocasiões. Os camponeses produziam os primeiros, enquanto que os grand crus de hoje (de origem essencialmente urbana à exceção da Borgonha) eram produzidos pelos burgueses das cidades para seu consumo próprio e para o mercado urbano (antes mesmo de se pensar numa comercialização para lugares mais distantes).

 

Estes grandes vinhedos acabaram por se distinguir dos demais pela capacidade de comercialização de sua produção, como declara outro geógrafo, Jean-Claude Hinnewinkel (Les terroirs viticoles, origines et devenir”, ed. Féret, 2004), professor na universidade de Bordeaux e especialista na gestão de vinhedos.

 

Pois este é o parâmetro que se verifica sempre: os grandes vinhos são mais caros de produzir e exigem que seus proprietários tenham recursos para garantir a qualidade de sua produção e assim se destacar da concorrência. Além disso, as melhores terras sempre foram disputadas desde a Roma Antiga até Luis XV: os ricos buscavam que o poder público limitasse, interditasse ou suprimisse as plantações populares, numa ação que visava valorizar seus vinhedos. Portanto, a qualidade de um vinho é, pois, a expressão de um meio social.

 

Como nascem os grandes vinhedos

 

Os grandes vinhedos nascem de uma vontade local e coletiva. Embora Bordeaux, Borgonha, Porto e Toscana sejam definitivamente regiões diferentes, o que elas têm em comum é que cada uma delas tem uma forma de preservação que lhes é própria assim como também um modelo econômico que lhes permite sobreviver em face da adversidade.

 

Desenvolvimento garantido pela política, produtores e mercadores

 

O desenvolvimento dessas grandes regiões vinícolas foi garantido pela união de políticos, produtores e mercadores. E tem sido esta estrutura a base do sucesso de grandes vinhedos como os do Douro, Toscana, Bordeaux ou Borgonha, embora e aparentemente não o suficiente para que a UNESCO coloque os vinhedos de Borgonha no mapa do Patrimônio da Humanidade.

 

Esta estrutura baseada na união de políticos, produtores e mercadores está ligada a vinhedos de origem urbana, lugar, por excelência, onde se concentram os poderes e onde os produtores estão próximos do poder público. Um exemplo: no séc. 18, o sucesso do vinho do Porto é tão grande que resulta em baixa qualidade, o que punha em perigo toda a economia. Para prevenir a catástrofe, os produtores do vinho do Porto procuraram o primeiro ministro, o marquês de Pombal, para que estabelecesse em 1756 um comitê que garantisse um nível de qualidade de produção. E assim foi que se implantou a primeira apelação de origem controlada da história: para preservar os interesses de produtores e mercadores da bebida.

 

Outro exemplo mais recente: a Toscana esteve metida em discussões e votação se deve ou não permitir a mistura de castas francesas com a sangiovese. Além de outras querelas relativas ao Brunello di Montalcino. As vinícolas com menos recursos tendem a pedir menos tempo em barrica e tempo de guarda, enquanto que os que têm recur$os não estão dispostos a ceder...

 

Os fatores de um grande terroir

 

 Os fatores que levam à criação de um grande terroir - segundo Kees van Leeuwen,  enólogo do Château Cheval Blanc,  - são o sol, o clima, as cepas adequadas e a o homem (entenda-se o esforço por buscar qualidade e implantar infra-estrutura econômica).

 

Um exemplo é são os vinhos do Pomerol cuja falta de condições econômicas limitavam sua comercialização e, portanto, sua expressão. Faltava ali a criação de um negócio potente em Libourne - que existe desde a Idade Média -, mas para que os vinhos do Pomerol adquirissem a reputação que têm hoje, precisaram aguardar os anos cinquenta do século passado, que lhes deram condições para se desenvolverem.  Por isso, Kees van Leeuwen está convencido de que “existem numerosos terroirs adormecidos, porque as condições socioeconômicas ainda não estão reunidas”.

 

Daí que a criação do Ibravin, no Brasil, deva ser visto como um marco na história do vinho brasileiro.

 

A candidatura de Borgonha e Champagne

 

Nenhuma das duas candidaturas foram rejeitadas. O que sucede é que a UNESCO introduziu novas regras, tais como, um país não pode apresentar mais do que um marco cultural. Borgonha e Champagne vão apresentar sua candidatura outra vez em janeiro de 2014 na esperança de entrarem numa lista de 2015. A França tem 37 sítios na lista, inclusive os vinhedos de St-Emilión. A cozinha francesa, esta já é considerada patrimônio da Humanidade desde 2010.

 

É torcer e aguardar.

 

 

(1)É um estudo sobre três obras: “Les Terroirs viticoles, origines et devenir” de Jean-Claude Hinnewinkel (Ed. Féret, 2004), “Histoire du paysage français” de Jean-Robert Pitte (Ed. Taillander, 1983) e “Le paysage et La vigne, essais de géographie historique” de Roger Dion, 1990.





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